Sobre a cultura da faculdade de arquitetura

Tava divagando ontem no twitter sobre a cultura da minha faculdade de arquitetura e decidi compilar aqui pra compartilhar com vocês um pouco do que falei por lá. É meu ponto de vista sobre a minha experiência em quase seis anos de faculdade. Sinta-se à vontade pra discordar de mim e me ajudar nessa discussão.

Crowdus Street Landscape Design Competition – Diego Bonadiman

Essa semana eu consegui estudar um monte de parada que me interessa dentro e fora da arquitetura, analisar alguns projetos que eu fiz na faculdade e fazer pequenas alterações de acordo com conceitos que eu desenvolvi mas não trabalhei muito durante os cursos e tal. Eisso me fez refletir sobre a faculdade e como a cultura da minha FAU é um negócio brutal sem necessidade que não te permite pensar sobre o que tu tá produzindo.

Basicamente, o esquema é: você só faz, faz, faz e não necessariamente desenvolve uma base conceitual com aquilo. Você acaba com um produto que pode ou não ter tido muita reflexão por trás mas pro aluno meio que tanto fez, tanto faz durante a disciplina porque chega uma hora que você se enche e só se preocupa com quantos cortes faltam pra completar o que o professor pediu ou gerar um render matador pra mascarar a falta de reflexão.

Daí nessa de produzir, produzir, produzir não sobra tempo pra estudar arquitetura de verdade com todos os desdobramentos teóricos do projeto nem de estudar outras coisas pra desenvolvimento pessoal mesmo que podem ou não influenciar seu trabalho como arquiteto. O ritmo de trabalho é tão frenético que você só produz coisa pra caramba, reproduz uma meia dúzia de discursos prontos que tão fazendo sucesso no Archdaily no momento e não desenvolve seu pensamento crítico próprio sobre a prática e, por consequência, não influi no avanço de conceitos e tecnologias que a gente utiliza. O mundo todo tá repensando as formas de fazer arquitetura e a gente tá aqui reproduzindo Le Corbusier ainda como se fosse o melhor meio possível de se projetar e construir.

Unité d’habitation – Le Corbusier

Estar de férias e ter tempo de estudar de verdade o que me interessa e não apenas seguir o programa da faculdade me fez pensar o quanto o curso de arquitetura é, de certa forma, alienante. Você não vê o que tá acontecendo no mundo, não sabe dos avanços da ciência, da arte ou da filosofia porque fica trancado no atelier ou na sala de aula o dia todo, vai pro estágio, volta e faz mais trabalho pro projeto. Esse tipo de conduta num curso generalista como a arquitetura é, no mínimo, preocupante. A quantidade de fatores externos que influiu  na nossa profissão ao longo da história e ainda afeta hoje em dia deve ser apreendida, analisada e debatida tanto pessoalmente como no meio acadêmico, mas como fazer isso numa cultura que não te dá tempo pra isso?

E essa parada do ensino influi tanto no meio acadêmico como no “mundo real”. O tanto de arquitetura lixo que a gente vê por aí é consequência direta do modo como a faculdade de arquitetura funciona(também, do mercado e da forma como a economia dita as regras, eu sei), focando na produção em massa de modelos que “deram certo” e negligenciando o a reflexão sobre o objeto arquitetônico e urbano e a proposição de outras formas de pensar o espaço. Enquanto a maneira de ensinar arquitetura não mudar, dificilmente atingiremos um dos objetivos da nossa prática que é a de realizar mudanças significativas na vivência do ambiente construído.

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