Para além do homem médio

“A arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz.” E se não houver luz, o que sobra? Como experienciar a arquitetura sem um dos sentidos mais privilegiados pelos arquitetos que seguem esse princípio?

De repente, tudo o que eu parecia saber sobre o prédio que frequento todos os dias desapareceu. Ainda tinha a imagem mental da edificação, mas a forma como a percebia, os olhos, foram tirados de mim por alguns instantes e isso foi o suficiente para me desnortear por completo. Na ausência da visão, meu corpo tentou preencher a lacuna deixada com outros sentidos, o equilíbrio, o tato e a audição confundiam-se em uma coisa só para me auxiliar em um percurso simples mas que tornou-se incrivelmente difícil. A cada passo, havia a possibilidade de uma armadilha adiante. Pavimentos irregulares e desníveis inesperados nos primeiros minutos, fizeram com que eu diminuísse a velocidade do meu andar natural no restante do caminho. Nesse caminhar vagaroso, as distâncias pareciam absurdamente maiores e a falta de um caminho marcado para o meu tato, auxiliado por uma bengala, quase me fez andar em círculos diversas vezes. A sensação de desorientação só não é pior que a aparente solidão. Sons enganam e medir a distância de uma pessoa a partir de sua voz revelou-se algo bastante complicado. “Tem alguém aí? Tem alguém aí? O sinal tá aberto?” Um buraco justo no ponto de travessia prendeu minha bengala e me fez perder o tempo, extremamente curto, para atravessar ao outro lado da rua. Só consigo atravessar com a mão no ombro de um amigo e a sensação de impotência por não sentir que a cidade permite que pessoas nessa condição sejam independentes.

Após experienciar alguns minutos de profunda desorientação sem a visão, experienciei a sensação de me movimentar com o auxílio de uma cadeira de rodas. Enxergar o caminho não o fez menos difícil. O sol sobre a cabeça tornava a movimentação exaustiva e o piso acidentado dificultava a rotação das rodas. No espaço interno do edifício não foi diferente, o caminho acidentado do pavimento térreo exigia um esforço muito grande e, ao usar um simples elevador, a movimentação em seu interior era extremamente difícil, some-se a isso, os olhares dos que ficaram de fora, que quase diziam com fúria “por causa de uma cadeira de rodas vou demorar a chegar”.

Os corredores e entradas de ambientes pareciam mais amigáveis à movimentação com a cadeira, no entanto, ao tentar usar uma das cabines do banheiro, me vi na impossibilidade  de me transferir da cadeira à privada pela ausência de barras. Tal como a situação de não conseguir atravessar a rua sozinho, não conseguir fazer uma atividade rotineira me afetou profundamente pois percebi como arquitetura e urbanismo não tem sido feitos para todos. Mais do que querer culpar alguém por isso, vi que talvez a indiferença de alguns arquitetos e urbanistas à garantia do uso de um edifício por qualquer pessoa em qualquer condição se deva à falta de experienciar nem que seja por poucos instantes o dia-a-dia de quem não é o “homem-médio-ideal”, ou seja, conhecer a escala humana em todas as suas variações.

*Texto desenvolvido durante o workshop de Acessibilidade: técnicas especiais de projeto na FAU-UFRJ, misistrado pela arquiteta Regina Cohen onde os alunos deveriam realizar percursos no prédio da faculdade simulando deficiência visual e motora.

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