Eu, você, dois incêndios e uma dentadura

É engraçado como o ser humano(leia-se: Eu, me colocando na arrogante posição de representante de toda a raça humana) nunca está satisfeito com nada. Isso pode ser bom por você estar sempre impondo a si mesmo novas metas a alcançar ou ruim por você sempre viver reclamando da vida seja sozinho ou na internet(que também é reclamar sozinho mas com a possibilidade de ganhar uns likes/retweets no processo). Mas não é sobre problemas do mundo atual que eu vim falar hoje.

Tava pensando em como eu sinto falta do ramal Japeri dos trens da Supervia. Ele era realmente muito bom e eu não dava seu devido valor.  Sempre tinha alguma coisa interessante acontecendo pra me distrair, todo aquele contato humano, gente bonita e o mais importante de tudo eu estava muito mais seguro do que eu estou hoje andando de ônibus. Você deve estar pensando que o calor do verão carioca torrou meus miolos(e você pode estar certo) mas eu tenho uma boa explicação pra isso. Nos últimos seis meses andando no maravilhoso 420T (aquele mesmo onde eu já apanhei e fiz um tour pelo Rio), ele quebrou tantas vezes que já virou até piada na rodovia Presidente Dutra, todo mundo passa e pergunta se já quebrou algum naquele dia e, se não bastasse isso, eu quase morri queimado duas vezes.

Acordo às cinco da manhã quando estou em aulas pra poder ter uma remota possibilidade de chegar a tempo pra aula das oito. O resultado disso é que durmo como uma pedra dentro do ônibus.

Tipo assim, só que não tão confortável quanto o Kirby.

No começo do semestre, dormia tranquilo como o Kirby no busão quando fui acordado por um estranho cheiro no ar. Tiro os fones de ouvido para sentir e ver melhor (o que não é sinestesia para deixar esse texto que já tá enorme mais poético, meus amigos, meu cérebro realmente funciona desse jeito, vai entender) e começo a perceber correria  e a fumaça na frente do ônibus. Anos de Japeri me treinaram a lidar com situações de pânico generalizado: coloquei a mochila na frente do corpo e comecei a me dirigir rapidamente até a saída. O que eu não esperava foi o que aconteceu em seguida, enquanto as pessoas se amontoavam para sair e as chamas começavam a avançar para o fundo do ônibus, caí na seguinte cena:

Estava preso atrás de uma idosa tal como o Mr. Bean usando as escadas, num ônibus pegando fogo. Fiquei desesperado, quase todo mundo já tinha saído e eu atrás da senhora que parecia não se importar com a situação. Quando todos conseguiram sair, o ônibus simplesmente explodiu, sem brincadeira, não sobrou nada pra contar história(eu tinha uma foto mas acabei perdendo na atualização do meu celular, fico devendo essa, galera).

Enquanto esperávamos o ônibus que viria para buscar os passageiros, a senhora se aproxima de mim e diz:

– Desculpa te atrapalhar, meu filho, mas acabei perdendo minha dentadura enquanto corria e tentei procurar antes de sair do ônibus mas não deu. 

Quase fiquei com raiva, mas ela deu um sorriso sem dentes que derreteu meu coração. E entramos num ônibus que mais parecia um carro de palhaço de tão cheio para prosseguir a viagem.

Corta pro fim do semestre. Logo depois de botar os pés no ônibus meu sentido aranha anunciou que alguma coisa ia dar errado só depois de eu já ter pagado a passagem, ou seja, estava preso à situação devido ao dinheiro investido que não é pouca coisa, diga-se de passagem 6,30 dilmas num ônibus nessas condições:

Imediatamente depois de já ter passado da roleta senti um cheiro de queimado e, fiquei alerta porque já conhecia a situação. O ônibus, caindo aos pedaços e se arrastando no trajeto, com dificuldade consegue chegar à rodovia presidente Dutra, uma olhada rápida pela janela revelava uma pista sem muito trânsito à frente. Meu coração quase se enchia da esperança de chegar antes da aula e ainda tirar uma soneca no centro acadêmico, quando o cheiro de fumaça aumenta e vejo todo mundo correndo para a saída do ônibus. Uma rápida escaneada visual na situação me fez ver que o motorista se juntou à massa de desesperados e tentava correr pra fugir sem ter aberto a maldita porta do ônibus. Pensei “Por Odin, hoje não é meu dia, de novo! Mas hoje não vou permitir que nenhuma velhinha  fique na minha frente!” Num rápido impulso ~BruceWillisístico~ realizei meu sonho de infância de abrir as alavancas de emergência da janela (fala sério, vai me dizer que você nunca se imaginou abrindo aquilo algum dia? Eu já, muitas vezes, diga o quanto isso indica problemas psiquiátricos nos comentários deste texto), chutei o vidro e pensei que por ter jogado incontáveis horas de Assassin’s Creed, eu estava habilitado a saltar de grandes alturas sem grandes danos. Mas o que realmente aconteceu foi isso aqui:

Joguei a mochila primeiro, pulei em seguida amarradão e acabei caindo por cima do meu braço direito, resultando em muitos arranhões e uma dor fenomenal que me rendeu um final de semana inteiro sem poder desenhar ou usar o computador(imaginem um estudante de arquitetura nessa situação, o horror). O ônibus ficou menos detonado dessa vez e o que veio buscar os passageiros estava vazio, então a continuidade da viagem foi menos insuportável apesar do trânsito grotesco que o acidente gerou.

Realmente 2014 não foi um bom ano para usar transporte público(nenhum ano é na verdade mas às vezes dá pra sair ileso). Enquanto escrevia isso, achei essa página no facebook e a quantidade de encrenca que aconteceu nos trens da Supervia esse ano me fez pensar que talvez eu não esteja com tanta saudade assim. Mas a pergunta que fica é: se rolasse o terceiro incêndio, eu poderia pedir música no Fantástico?

Até mais, pessoal.

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