Esse negócio de ser professor não é fácil

Durante boa parte do meu ensino médio e um pouco antes fui professor particular. Ajudava aquelas almas desesperadas a se salvarem das recuperações e não levarem coças de seus respectivos pais. Isso me ajudava a ficar sempre estudando, era de certa forma divertido e bancava meus caros materiais de desenho. Meus alunos tinham entre 14 e 18 anos. Minha mãe também é professora e também dava aulas de reforço nessa época, mas seus alunos eram menores, quase todos com menos de 10 anos.

Um dia, ela precisou sair e, coincidentemente, eu não tinha aula pela manhã nesse dia, então me pediu pra substituí-la. No dia anterior ela disse que era um grupo de irmãos que viria naquele horário. Estranhei, porque estava acostumado a dar aulas individuais, mas pensei “Grupo de irmãos pequenos? Isso vai ser fácil.” Mas eu estava profundamente enganado, meus amigos.

9 da manhã. No horário marcado eles apareceram e pareciam inofensivos com seus “bom-dias”: 4 crianças, 3 meninas e um menino com mais ou menos 1 ano de diferença entre cada, o mais novo com 6 e a mais velha com 9 anos. Nos primeiros minutos, tudo bem, eles sentados em torno da mesa fazendo os exercícios que eu tinha proposto. 20 minutos se passaram e com um simples olhar da mais velha pros mais novos tudo mudou. O caçula se tornou a encarnação do Tazmania correndo em círculos em volta da mesa e espalhando as folhas, as outras começaram a falar  incontrolavelmente sobre garotos da rua (garotas de menos de dez anos deveriam falar de garotos? Vou pesquisar isso no Google depois) e eu na hora entendi porque minha mãe usou a palavra GRUPO e não outra qualquer pra descrever as crianças: eles não eram uma família, eram um grupo terrorista, uma organização criada para espalhar o terror entre professores.

Enquanto divagava, a mais velha tomou a palavra e por alguns segundos eles pararam. Ela disse:

– A gente não quer fazer mais nada hoje não.

Tentei argumentar dizendo pra “florzinha” (palavra genérica pra qualquer criança do sexo feminino) que eles precisavam estudar porque as provas estavam vindo e que estudar era importante, mas não houve efeito. Ela parou de falar e seus subordinados(capangas? cúmplices? aliados?) voltaram à ação. Desta vez as meninas também corriam e o pequeno diabo da Tasmânia se grudou à minha perna. Tentei sacudir pra ver se o menino se soltava mas não surtiu efeito.

Os momentos seguintes foram ainda mais apavorantes: as duas pequenas correndo debaixo da mesa, enquanto a maior estava de pé sobre ela. Nesse momento tinha que tomar uma ação urgente pois essa mesa tinha um dos pés pouco resistente e qualquer sobrecarga poderia desequilibrá-la, machucando as crianças. Num súbito momento supermanzístico corri com o diabo da Tasmânia ainda agarrado na minha perna e segurei a líder da facção que estava a dançar o créu (cara, o que fizeram com as crianças de hoje em dia?) e a tirei dali. Na mesma hora, ouço o barulho do portão se abrindo e vejo minha mãe. Eles voltam magicamente aos seus lugares como se nada tivesse acontecido. Sentei na cadeira suado, ainda apavorado com a mais longa hora da minha vida e minha mãe calmamente começa a conferir as respostas dos exercícios com as crianças que agora mais pareciam estudantes daqueles colégios ingleses de filmes antigos.

Depois desse dia nunca mais substituí a minha mãe porque tem coisas que só as tias conseguem fazer. Encarar aquelas crianças é uma dessas.

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